segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Aquarela dos sentidos

 


O céu foi gentilmente pintado de um azul desmaiado com pinceladas brancas...

Nuvens de algodão aqui e ali para não esquecer que podemos brincar.

Quisera eu pintar com minhas mãos tudo que vejo e que sinto

Sons, odores, sabores e cores.

Quisera eu retratar com exatidão as cores primaveris que me trespassam os olhos.

São cores tão cintilantes que mesmo que tivesse os melhores pigmentos

Seriam apenas borrões frente à exuberância natural.

O cheiro selvagem da mata que entra pelas narinas se esconde no musgo pegajoso.

Sabores ocre invadem as entranhas amarrando a língua da fera que reside em mim.

O som do silêncio inerte da madrugada...

Retrata o vazio da existência em si.

Tudo me toca!

Que pena...

Tudo que me toca fica somente em mim...

quarta-feira, 7 de maio de 2025

3 de maio



Foi estranho não ligar no seu aniversário.

Sempre foi uma obrigação solene, militar.

Ele sempre fez questão de ser o primeiro a ligar para todos

No dia do aniversário.

Claro que esperava o retorno!

Sabia fazer piadas, proferir palavras doces

Distribuir balas, lá fora...

Eu conheci sua outra face, com a qual convivi,

E aprendi a tolerar e respeitar.

Esse respeito dificil de engolir esperava sempre por um jeito

De ser livre do jugo.

Um dia fugi, voltei, me rendi.

Saí novamente, cresci, venci.

Superei as expectativas dele.

Um dia ele teve até orgulho de mim.

Era o que ele tinha em excesso, orgulho.

 

Um dia ele se foi, ligeiro...

Eu me surpreendi, pois sempre achei que teríamos

Mais tempo para resolver o que ficou pendente.

Mas não, tenho que resolver tudo sozinha agora.

Enterrar o que me fez como sou.

E agora?

Para onde vou?

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Looping

 




Minha vida, 

Meu destino, minha sina,

Emoções,

Todos em looping vão e voltam.

Alternam como atrações de um grande circo,

Ou parque de diversões:

Um carrossel imenso que tonteia,

Uma roda gigante desenfreada,

Uma montanha russa desembestada...

Penso às vezes que tudo que estou vivendo

Já foi vivido, senão por mim

Por outros mil.

As emoções emaranhadas

Só se ajeitam nos versos

Os sentimentos desalinhados

Só se alinham na poesia.

É um jeito de viver estabanado,

Que não para pra pensar,

Só pra viver,

Só pra sentir.

E sente.

E sinto.

Sempre.


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Alternância

 


Vivo a alternância entre o azul/azul e o verde/azul .

Estou hoje na estrada-tucano-ipê

Deslumbrada com o amarelo-rosa-roxo,

Com a leveza do vôo livre.

Viajar como tantas vezes fiz,

Não torna a viagem menos surpreendente.

Cada curva, cada pôr do sol,

Cada detalhe que me escapou ontem

Faz todos os restantes valerem a pena.

Não busco, simplesmente me entrego

A todo instante,

Abrindo cada um dos meus poros

À nova experiência-existência.

Cada respiração é um ato de existir,

Cada piscar de olhos é um modo de nascer


quinta-feira, 6 de junho de 2024

Transparência

 


Já fui mais generosa.

Já olhei as pessoas com olhos mais bondosos.

Não sei se o tempo, ou as pessoas, ou eu mesma mudei.

Hoje me percebo distante

Indiferente

Às vezes até insolente

 

Diante da vida insolente,

Dos outros indiferente

Com suas opiniões,

Julgamentos,

Cobranças.

 

Extravagante

Aquilo que o tempo desvela...

Revela o que está nas profundezas,

Nas vísceras.

 

O que vem à superfície

Por vezes não é o melhor de nós,

Mas é o mais cristalino,

Hialino

 

Duro como vidro

Transparente como cristal


quinta-feira, 16 de maio de 2024

Encontros do início com o meio e o fim.

 


Um dia pode nos trazer inúmeras surpresas...

Revelar o que por certo não esperamos.

Um dia pode encerrar muitos encontros,

Cada um deles com suas riquezas

 

Um ciclo pode se encerrar sem muitas surpresas,

Mas se tivermos de olhos e coração abertos,

Por certo podemos reconhecer os presentes

Escondidos desde o amanhecer.

 

Como um dia é a vida:

Vamos amanhecendo aos poucos

Trilhando nossos caminhos no escuro ainda,

Aproveitando a fresta de luz que se descortina.

 

O sol a pino nos traz vigor.

Não medimos a força, por que não nos falta.

Enfrentamos a vida sem perceber.

 

Quando nos damos conta

Estamos no entardecer,

Cheio de cores a esmaecer.

 

Mas nosso olhar se torna atento.

Não queremos mais correr.

Aproveitamos cada momento

De cada encontro que vamos ter...

 

Esse encontro...

 

Olhando nos olhos por vezes atentos,

E outras extenuados por noites não dormidas

Vemos sonhos que estão estampados

Nesses olhares curiosos e inseguros.

 

A busca por algo incerto

Por vezes perto

Por vezes distante...

 

Cada ser procura,

Se lança na dúvida:

Valerá a pena?

 

Sempre vale...

 

Vale aprender.

Vale ensinar.

 

Cada um ensina algo sobre ser.

Tudo é aprendizado, é crescimento.

 

Mas crescer dói.

Romper o casulo é sempre dolorido.

Conhecer-se dói.

O espelho sempre surpreende.

Mostrando o que vai lá dentro.

 

E assim, nossa jornada vai sendo tecida

Com as tramas dos fios dourados dos encontros,

Com os que estão no início, no meio e no fim.

 

terça-feira, 23 de abril de 2024

Minhas viagens

 




As viagens que já fiz para dentro e fora de mim

Estão encravadas na alma errante

Saltitantes imagens aparecem na mente

E descansam no coração

 

As viagens para dentro trazem paz e tranquilidade

São conhecimento, dor e calma

São loucura, amor que acalma

São buscas, encontros e alteridade

 

As viagens para fora, ah essas!...

Gravadas nos olhos do coração

Com aromas, sabores e desejos

Desafiando todos os sentidos

 

Quero mais, sempre mais!

Todas as viagens são benvindas.

Tudo que vivi e viverei eu quero.

Tudo que vivi e viverei sou eu...

 

Deixarei em algum lugar remoto

Para quem quiser ter acesso

Para quem quiser se aventurar

E buscar, buscar, buscar...

sábado, 1 de julho de 2023

Um certo Porto Seguro

 


No pôr do sol em Porto,

No cais do porto,

O sol cai devagar.


O céu se mescla de mar

E me faz amar cada vez mais....


Vejo a noite chegando de mansinho

Pintando de prateado o rio

E de furta-cor o céu.


Eu me demoro como num suspiro

Olhando de longe o céu e de perto a lua.


Respirando no ritmo do farol, sempre verde,

E no balanço lânguido das embarcações,

Nem me dando conta das risadas felizes de quem te visita


Esse Porto que me abraçou, 

me acolheu e me segura...

Por certo não é tão seguro para jovens pretos.

Para brancos velhos, talvez...

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Vale Profundo

 


Monstro silencioso que nos resseca por dentro,
Seus tentáculos atingem nossa mente, coração e olhos,
Enevoa nossos sentidos tingindo de cinza nosso olhar.
Suas garras fincadas no coração apertam o peito sem cessar,
Tirando o fôlego e fazendo fugir o sono ao deitar.

Como vens sorrateira, fera ignóbil!
Instala-se sorrateira, quase imperceptível 
Desbotando as cores vívidas outrora vistas.

Paralisa os movimentos que antes eram dança.
Pesa como chumbo o que antes eram asas.
Torna silente aquilo que soava festa.

Fiz eu por merecer tão triste castigo,
ou apenas destino inexorável é esse fardo?

Não sei. Só sigo levada submersa por essa longa vaga-vida.








segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Vida, minha vida (publicado no Livro Escritas Sororais - Mulheres da Região Mater do Brasil: org de Marilia Martins)

 


Saio em busca de um alvo, objetivo.

Encontro caminhos, sozinhos.

Rodopio em um turbilhão, paixão.

Viro terra, fera, 

Encantada, assolada,

Com um rebento, ao relento.

Caio em voo livre, atada.

Volto e me remendo, gemendo,

Cheia de dores, amores.

Consigo o que penso ser paz,

Capaz...

Entrego tudo, me desnudo.

Quebro inteira, besteira.

Volto e me recomponho, me exponho.

Aos poucos saio, me levanto e caio,

Novamente me levanto, acalanto.

Descubro novo caminho, um ninho

Feito de gestos honestos, 

Poucas palavras, transformadas,

Sem paixão, combustão

Frágil contato, imediato,

Profundo, no entanto,

Por partir da descoberta 

Que me conheço hoje

Não mais em pedaços, 

Mas inteira.


Se...




Se minhas pernas fossem norte

Eu teria calçado os pés  de espinhos.

Se meus olhos fossem vendas

Teria eu visto névoas no horizonte. 

Se minhas costas houvessem se curvado

Os fardos seriam os vencedores.

Escolhi todavia, a bússola sem agulha, 

Tatear com o coração, 

E deixar nascer asas pra voar.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

EXPLOSÃO DE CORES E AMORES



Você me abraça com doces palavras sapecas,

E desliza suas mãos cuidadosamente

Dirigindo seu brinquedo por estradas sinuosas.

Tateia como que buscando uma joia no escuro...

É fácil encontrar, pois já conhece o caminho decor.

Brinca divertidamente saboreando seu doce predileto

Num balé combinadamente dançado,

Cadenciadamente marcado.

Busca o botão da rosa

Desejoso por vê-lo florescer.

Faz desabrochar de forma vívida e mágica

Promovendo um show pirotécnico de muitas luzes e cores

Que se finda na completa sensação de mutuo amortecimento

E no sono mortal que dormem os justos.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

MANDALA

Entre traços

Teço cores
Rabiscos aplicados
Percorrem disciplinados
A pureza alva do papel,
Que espera ansioso
Novas matizes coloridas.
A mente está lá,
Em busca da ternura,
Da eternidade...
                        Enternecida mente

domingo, 14 de junho de 2020

DELICADEZA

A delicadeza que transparece para o mundo não é simples.
A alma delicada é de uma complexidade imensa.
Tudo internamente precisa estar ordenado, equilibrado,
Para que emerja o olhar atento, delicado.

A delicadeza não é apenas uma atitude pensada.
Exige uma viagem ao interior que às vezes é dolorida.
Doída é a reflexão! Um grande reflexo no espelho...
Que necessita de coragem e ousadia.

A coragem é para se lançar ao que vê,
E nem sempre é o que se espera.
A ousadia para mudar o que for preciso.
O que é mais difícil em tudo isso.

Enfim, a delicadeza é a busca do olhar do outro
Do sentir do outro, da alma do outro.
Esse outro pode ser um bicho, um lugar...
Um ser qualquer que está fora e próximo de nós.

domingo, 3 de maio de 2020

SILÊNCIO UNIVERSAL



Minha alma silencia.
A Terra está em silêncio,
E esse tempo suspenso
Revela o que há de mais profundo,
Mais profuso
Na alma da Terra.

Era tempo.
Era hora.
Há tempo a Terra chora.
Implora para que paremos;
Silenciemos;
Busquemos o que há de mais quieto.

Quando será o tempo de sairmos?
Como sairemos após esse tempo?
Será suficiente?
Será vão esse silêncio universal?

Almas atormentadas ainda gritam,
Clamam por mais terror.
Chamam a uma guerra,
Que de santa nada tem.
Aquelas outras almas tantas
Buscam outro caminho
Longe do desativo.


Quem vencerá?
Quem sairá ileso?
Aqueles cavaleiros de máscaras e antissépticos,
Ou os outros que se lançam desvairados
Assolados pela insanidade?

Não sei, ninguém sabe.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

Roda Dança

Encontro de vidas, 
Seres sendo humanos
Revelados em toque,
Danças e olhares...
Olhos Profundos,
Olhos Guerreiros,
Olhos Alegres,
Olhos Tristes,
Olhos Fortes...
Cada um buscando no outro o que lhe falta,
O que lhe completa, alimenta.
Roda gira, salta, vira.
A roda da vida se mostra amiga
Abraçando cada um e a todos,
Num grande abraço do tamanho do mundo.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Poema Rasgado


Eu me rasgo e despedaço
Viro do avesso e atravesso
Tantas e quantas vezes necessário
Para quebrada me tornar inteira

Saio por aí e requebro.
A saia dança, vira e rodopia
Frenética valsa, ritmada salsa,
Batendo a cabeça e quebrando a cara.

Sou isso, aquilo e de novo nova.
Saio de tudo renascida estrela,
Super nova, buraco negro,
Fenix fractal, em pedaços refeita.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

JARDIM POESIA




O verde abraça a paleta de mil cores
De mil flores multicoloridas.
A primavera abre de verão a verão
E todos vêm, veem e verão
O maravilha pulsante
Que emerge da terra massante.

Flores da paixão
Frutos da estação
Do amarelo desmaiado as alamandas
Ao laranja pungente das borboletas.

Sobe pelos muros a abóbora serpente
Enroscando-se no metal para assustar o inocente.
Protege assim o broto delicado
Que aponta do solo esturricado

O manacá desceu a serra para repousar perto da fonte.
Sapoti e Eugênia confidenciam segredos frutíferos
Enquanto sabiás e sanhaços brincam e bicam
O banquete matinal.

Ouve-se o zunido da mangaba
Quebrando o silêncio meloso do quintal.
Refúgio bondoso que enreda e envolve
Nosso coração ambiental.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

SOMA

Soma

A parte não produtiva do ser vivo
A bebida que entorpece a mente e o corpo
O conjunto de tudo que temos
O conjunto do que somos

Pensamos muitas vezes que o ter não é ser
Mas na realidade ser é o ter tido
Durante a soma dos anos
Da vida que vivemos

Somos os amores e as dores
Somos as cores e sabores
Somos as lutas e as glórias
Somos a fúria e a calma

Na soma de tudo o que fomos
Está o resultado de tudo o que tivemos
Tudo o que somamos
Com os parceiros de sina e sono.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

SOBRE BARCOS




Navegar sempre é preciso...
Viver é imprescindível.
O balanço do rio, as ondas do mar
Tornam a vida mais aventureira.

Parece estar parado, mas nunca está
Depende da água, do vento, do sol
Da maré e do marinheiro
E se move mesmo descansando.

O sol ilumina o caminho das águas
Traduz em calor o vento que move. 
Subir no barco a cada dia
Enfrentando o que há de novo...

Eu me aventuro a cada dia
Tento ouvir o vento, sentir o sol
Viver a novidade do dia.
Tenho descansado navegando.